O QUE COMEÇA COMPLICADO...
O que começa
complicado, continua complicado.
Complicado já foi o
parto. Na hora H, o neném virou e entalou. Cesariana, naquela época, só mesmo
em último caso. Depois de muita luta e sofrimento, a criança nasceu, mas não
chorou. Roxinho, não reagia às palmadas veementes e somente quando todo mundo
já tinha desistido dele, respirou fundo e chorou um choro fraquinho, sem muita
vontade de viver.
Foi uma criança
complicada, não gostava de se alimentar e nem de brincar com os meninos da sua
idade. Preferia seus amigos imaginários, que lhe falavam de dentro de seus
pensamentos.
-
É porque demorou muito pra nascer – diziam os entendidos. – A cabeça dele ficou assim... meio lelé.
E giravam o dedo
indicador na altura da têmpora.
No começo, os pais ficavam indignados, mas depois se
conformaram em ter um filho assim... meio lelé.
Ele também se adaptou à sua doidice, já que todos eram unânimes em
afirmar que sua cabeça não batia bem. Mas também não contava para ninguém as
conversas incríveis que mantinha, mentalmente, com seus amigos invisíveis.
O que eles lhe contavam, parecia até
ficção. Falavam sobre outros mundos fantásticos, coexistindo com este mundo
onde ele estava, tão sem graça em comparação com as maravilhas universais. E,
quando a conversa mental acabava, ele ficava sempre na dúvida. Será que
escutara mesmo tudo aquilo, ou era maluquice de sua cabeça? Acabava achando que
era maluquice mesmo e seguia vivendo, embora achando seus dias muito insossos e
sem finalidade.
Um dia, depois de uma das longas
conversas mentais, uma pergunta se instalou em sua mente e nunca mais o
abandonou:
- Afinal, o que estou fazendo aqui? Se vocês são reais
e me falam que eu pertenço a um mundo que não é este em que vivo, por que então
não me dizem o que faço aqui?
O tempo passou, mas a pergunta
continuava a fustigar sua mente. Até que, numa tarde quente de verão, enquanto
surgia a primeira estrela de uma noite que prometia ser linda, uma das vozes
veio com a tão esperada resposta:
- Você está vivendo num organismo muito precário, onde a memória só permite que se recorde de alguns fatos de sua vivência atual. Por isso não se lembra que se ofereceu voluntariamente para este trabalho. Sua missão, como a de outros voluntários, é ser nosso intermediário. Nós nos ocupamos da evolução espiritual desta sua humanidade, mas não podemos agir diretamente. Precisamos de intermediários. Falamos através de seus lábios, enxergamos através de seus olhos. Quantas vezes você falou sobre assuntos que aparentemente desconhecia? Quantas vezes sentiu seu corpo vibrar e despejar energia sobre tantos sofredores? É através de você que atuamos, que ajudamos a quem precisa, que levamos paz aos desesperados. Você, e tantos outros, são os mensageiros do nosso Amor.
A voz se calou. Um calor já conhecido
envolveu seu corpo e suas mãos vibraram, como que tocadas por uma força
poderosa.
Em poucos minutos, tudo passou e ele
abriu os olhos. Acostumado àqueles estados mentais, logo pensou:
- Mas uma doideira da minha cabeça...
Melhor não acreditar mesmo.
Mas... de onde
viera aquele pequeno cristal que brilhava na palma de sua mão?
Daquele dia em
diante, um sorriso enigmático enfeitou seu rosto, e ninguém mais duvidou de
nada. Ele nunca mais duvidou das vozes que lhe falavam, e as pessoas à sua
volta não duvidaram também, nem por um minuto sequer, que agora ele endoidara
de vez.
*** *** ***