UMA ESTÓRIA PARA GENTE GRANDE
Márcia Villas-Bôas
Existe uma criança dentro de cada um de nós, uma criança que se distrai em ouvir cantar os pássaros, uma criança que ama as flores e contempla, maravilhada, a explosão luminosa dos fogos de artifício; uma criança que, à vezes, se esquece que já cresceu e sonha e divaga pelo mundo encantado da imaginação e escapa pelos lábios da gente grande aonde habita, na forma de um límpido sorriso infantil.
E é para essa criança que existe dentro de cada um de nós, que vou contar uma estória...
Era uma vez uma menina. Aparentemente, uma menina como todas as outras. Uma menina que vivia como as outras meninas, uma menina que ia à escola como todas as meninas, uma menina que brincava como todas as meninas. Mas esta menina era uma menina muito triste. Era uma menina que não gostava de brincar e, às vezes, em meio a seus folguedos infantis, uma lágrima discreta escorregava de seus olhos muito negros e ia se esconder em alguma covinha de seu rosto. E se, naquele momento, alguém lhe perguntasse por que chorava, ela não saberia responder. Sabia apenas que sentia uma saudade muito grande. Saudade de que? Ela também não sabia.
E aquela menina que brincava como as outras meninas, no meio de tantas meninas, era uma menina só. A solidão envolvia-a num abraço quente e mostrava-lhe aquele mundo de gente grande e indiferente, que ia e vinha sem se importar com a menina triste que não gostava de brincar. E a menina olhava, espantada, a multidão que passava, sempre apressada, rostos aborrecidos, congestionados, como se carregassem em suas mentes toda a preocupação do mundo. E a menina, assustada, escondia-se num cantinho de sua vida, para não ser esmagada pelos problemas da gente grande que passava.
Um dia, quando passeava sempre só, a menina viu uma rosa, uma linda rosa vermelha. Aproximou-se dela e tocou suas pétalas aveludadas. Como é bonita! - pensou a menina - Como seria bom se eu pudesse conversar com ela. Deve ter coisas lindas para me contar!
E então a menina ouviu uma voz que parecia vir de dentro da flor. Não se surpreendeu, pois no mundo encantado de seus sonhos, também as flores falavam.
- Menina - disse-lhe a rosa - não pense que tenho coisas lindas para lhe contar. Eu sou uma simples flor, não conheço o mundo, não saio do meu jardim e muito em breve minhas pétalas cairão e eu ficarei feia, secarei. No entanto, existe em seu coração uma rosa muito mais bonita do que eu, uma rosa que um dia desabrochará e lhe mostrará um mundo de luz. E nesse mundo, você não mais se sentirá só, pois no mundo da luz não existe lugar para a solidão e a dor. Mas, para encontrar essa rosa, você terá que atravessar uma estrada longa e solitária, e para que ela desabroche em seu coração, você terá que regá-la com a água da fonte dos seus lindos olhos negros.
E assim que acabou de pronunciar essas palavras, a linda rosa foi sacudida por um vento forte, que fez com que suas pétalas se soltassem e caíssem. E a menina ficou olhando, com muita pena, o triste fim da rosa vermelha.
Mas as palavras que a flor lhe dissera não lhe saíam da mente. Havia uma rosa dentro de seu coração, uma rosa que desabrocharia um dia e lhe mostraria um mundo de luz. E a menina desejou ardentemente encontrar essa rosa. No mesmo instante, uma estrada muito longa apareceu à sua frente, e as palavras que a flor lhe dissera tornaram a ecoar em seus ouvidos: Para encontrar essa rosa, você terá que atravessar uma estrada longa e solitária, e para que ela desabroche em seu coração, você terá que regá-la com a água da fonte dos seus lindos olhos negros.
Sem vacilar, a menina começou sua caminhada pela estrada triste.
Enquanto a menina trilhava seu caminho solitário, lá em cima, muito, muito longe da terra, sentado em uma estrela, alguém pensava. Era um Ser tranqüilo e doce e que trazia em sua alma a sabedoria do Universo. E ele, absorvido na contemplação daqueles milhares e milhares de pontos de luz, lembrava-se de quando tudo aquilo era apenas Consciência que preenchia o Nada, que vibrava cheia de energia criativa, que existia cheia de Vida e Amor. E lembrava-se também de como aquela energia foi se condensando e girando, tornando-se luminosa, fazendo com que surgissem no negro do espaço imenso milhares de núcleos de luz. E lembrava-se de como surgiu a matéria densa, sem brilho, mas capaz de gerar a vida ao contato do cálido beijo de um raio de sol. E quando o sol encontrou a terra e fecundou a vida, nasceu o Amor, o Amor da Criação. Do sol veio a vida, veio a energia que fecundou a vida. E na terra formou-se a primeira célula, e formaram-se células em milhões e milhões de terras banhadas por milhões e milhões de sóis. Lembrava-se também, com muito carinho, de um pequeno planeta azulado, longo, muito longe, escondido num cantinho de uma galáxia imensa. E lembrava-se também das primeiras formas de manifestação de vida naquele lugar, minúsculas criaturas, inconscientes ainda da maravilha da Criação. E lembrava-se de como a vida animal foi crescendo, aumentando, evoluindo, e como foi criada a espécie capaz de receber a Consciência.
E, naquela época, os habitantes mais perfeitos daquele planeta eram ainda tão primitivos. No entanto, seus corpos físicos já eram quase dotados de um mecanismo capaz de manifestar a Consciência. Para que isso acontecesse, porém, havia necessidade de um aprimoramento daquela espécie. E aquele Ser tranqüilo e doce, que trazia na alma a sabedoria do Universo, partiu em direção ao pequeno planeta azulado. Mas não foi só em sua missão. Outros também o acompanharam. E os seres primitivos que habitavam aquele lugar evoluíram notadamente. O ser animal evoluiu e deu lugar ao ser mental, e sobre esse ser o Cósmico soprou a Consciência, infundiu a Consciência de Ser. E o homem disse pela primeira vez em sua vida: EU SOU... Era a Consciência do que estava criado em torno de si.
O ser tranqüilo e doce que, sentado em uma estrela, rememorava tudo aquilo, sorriu ao lembrar-se de como os primeiros homens chamavam a ele e a seus companheiros de deuses.
E o homem criou o tempo e começou a contá-lo. Muito tempo se passou até que o organismo humano se aperfeiçoasse o suficiente para poder abrigar a personalidade daqueles seres que vieram das estrelas para ajudá-los em sua evolução. E aquele Ser tranqüilo e doce novamente sorriu, quando a lembrança de suas vidas terrenas lhe voltou à mente. Lembrava-se de como o homem sentira, pela primeira vez, que a Criação era bem maior e mais antiga do que ele, começando assim a caminhar no rumo do mistério para desvendar o desconhecido. Assim, durante séculos e séculos, o homem caminhou em busca do Saber. E um dia sentiu que havia sido criado por alguém que tinha mais inteligência do que ele, por alguém suja sabedoria era maior do que a dele. Olhou então o nascer do sol no horizonte e sentiu que o sol tinha um poder. E adorou aquele poder. Com o andar do tempo e a experiência, percebeu que muitos dos seus desejos solicitados àquele sol eram atendidos. Passaram-se os séculos e as civilizações, e então o homem começou a acordar para uma nova vida.
E aquele Ser tranqüilo e doce, sentado numa estrela, percebe que é chegado o momento de habitar novamente entre eles, de ocupar por algum tempo a mais um corpo mortal para auxiliá-los na sua jornada atual, neste momento em que o homem sente um poder interno e não pode controlá-lo; para guiar esta humanidade desesperada, sem seus problemas solucionados, a maioria ambicionando por formas, coisas, fenômenos e objetos compostos de matéria pura, condensada. Busca o conforto, o bem-estar do corpo, mas sente que lhe falta o bem-estar da alma.
E o homem caminha, interiormente perdido numa madrugada fria, escura, onde ele apalpa, onde sua visão interna vai até onde alcançam suas mãos. Mas dia virá em que o Sol que criou os sóis vai despertar em sua alma, vai despertar em sua consciência e ele verá um clarão deslumbrante. Não o clarão do dia físico, mas o clarão do dia Universal. E neste momento ele sentirá que dentro dele há uma Luz, uma Luz bem maior do que a do sol físico, uma Luz que é a sabedoria imensa que o Cósmico lhe reservou. Ele vai sentir que pode criar exatamente como criou no princípio. Este homem vai encontrar a grandeza do Universo dentro de si. E, neste momento sublime, o homem encontrará o Amor, porque o Amor e a Sabedoria, o Amor e a Luz, têm a mesma nota na escala musical, a nota musical da Criação. E ele ouvirá os sons que criaram o Universo, acordará para o Infinito e será o criador de novos Universos.
E aquele Ser tranqüilo e doce, sentado numa estrela, prepara-se para partir, para ir mais uma vez habitar um corpo físico, entre os homens, para ajudá-los na luta pela causa do Universo, pela causa do Amor.
Enquanto isso, a menina continuava sua caminhada pela estrada longa e solitária, à procura da rosa do seu coração. Seus pés feridos e cansados quase não podiam mover-se. Os espinhos da mata feriam-lhe a carne e lágrimas de medo e dor escapavam-lhe dos olhos. A menina sofria. Mas a esperança de encontrar um mundo melhor, um mundo de luz, não a deixava fraquejar. E então, após muito caminhar, a menina percebeu uma pequena réstia de luz entre as folhagens. Aproximou-se e, surpresa, viu um altar, um estranho altar, com um espelho. Seu pequenino coração bateu apressadamente. Chegou-se, timidamente, e tentou ver sua imagem refletida no cristal. Mas o que viu do outro lado do espelho foi uma rosa, uma linda rosa vermelha. A menina, deslumbrada, não podia mover-se. De repente, como num sonho, sentiu-se atraída ao interior do espelho. Desapareceram o cansaço e as lágrimas, e a menina e a rosa se fundiram em um único ser.
A menina cresceu e virou mulher. E, como as mãos unidas em prece, e sentindo dentro do peito o calor da rosa desabrochada, a moça rezou:
- Deus de meu coração, dá-me coragem para enfrentar a dor, a desilusão e a amargura deste mundo. Dá-me força para vencer esses monstros de ilusão de nossa mente inferior. Ajuda-me, ó Deus de meu coração! Por que fugiste de mim? Por que me abandonaste?
Foi aí que se fez um silêncio imenso e ela perdeu lentamente a consciência de si própria e viu uma luz intensa que chegava à sua alma. Suas lágrimas secaram. E, com essa luz dentro do peito, com esse amor dentro da alma, começou a contemplar o mundo, a contemplar as coisas, a contemplar a Criação em todo o seu esplendor. E se identificou com tudo o que estava no Universo, com a mais recôndita estrela perdida numa galáxia, com uma flor silvestre que nascia numa árvore, numa floresta onde nenhum ser civilizado jamais pisou. Começou a sentir que em todas as coisas havia um pedaço de si, e que em si havia um pedaço de todas as coisas. Era a identificação Universal. As coisas do Universo eram suas, tinham o sabor de sua Criação. E assim vagou pelos espaços infinitos, perdendo a noção do tempo, perdendo a noção do lugar, apenas existindo. Ela era Luz, era Amor, era Nada, era Tudo. E uma sensação estranha começou a embalar o seu ser mortal. Sentiu que ele era um instrumento, um equipamento que o Cósmico lhe havia emprestado para cumprir seu dever, sua missão. E agradeceu ao Universo a possibilidade de servir. E o silêncio se fez em sua alma em suas três dimensões que comungaram entre si e expressaram seu Ser em alguma parte do Universo. No fundo, tudo isso era o Amor, este Amor imenso que sentia na alma, esse Amor intenso que sentia por tudo e que a identificava com o Todo.
E ela amou com a mesma intensidade com que Deus amou no dia da Criação, a luz se fez em seu coração e as trevas de sua alma se dissiparam. E o Amor cresceu, inundou todo o seu ser e sufocou-a em seu doce abraço. Todas as células de seu corpo palpitaram cheias desta nova vida, e sua mente comungou com a suprema Mente do Amor.
E lá em cima, muito longe da terra, sentado em uma estrela, alguém a observava. Era o Ser tranqüilo e doce, que se preparava para uma nova vida entre os homens. E sua Consciência projetou-se pelo espaço e encontrou abrigo na menina que virou mulher e despertou para o Infinito. E ela sentiu uma torrente de vida inundar seu ser.
E naquele pequeno planeta azulado, longe, muito longe, escondido num cantinho de uma galáxia imensa, uma criança chorou...
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