MISSÃO GEREMIA

Márcia Villas-Bôas

 

O pequeno Raphael espreguiçou-se e abriu os olhos. Lá fora, pintando o horizonte de ouro, o sol começava a nascer, iluminando mais um dia daquele ano de 8635.

Raphael levantou-se e chegou à janela, que refletiu sua imagem. Estava crescendo rapidamente. Em breve poderia participar de alguma excursão com os Colonizadores. Sorriu ao pensar como seria maravilhoso cruzar os espaços naquelas naves imensas, levando a outros mundos o conhecimento de seu povo.

Abriu a janela e olhou para fora. E foi então que viu aparecer ao longe aquela esfera translúcida que se aproximava sem ruído, poucos centímetros acima do solo. Firmou a vista para ver quem vinha dentro dela e seu rosto iluminou-se. Era Daniel!

Correu para fora para recebê-lo. Fazia tanto tempo que ele partira! Um ano...

A esfera parou e pousou no chão. Uma abertura apareceu e por ela Daniel saiu. Abraçaram-se em silêncio.

- Você cresceu, garoto... Está quase um homem!

Raphael olhou-o com um sorriso brejeiro.

- Eu já sou um homem. Acho que agora posso sair em viagens ... Você me leva na próxima que for?

Pelo rosto de Daniel passou uma nuvem de tristeza.

- Ainda não. Minha próxima viagem não será muito agradável. Não vai ser coisa para criança.

- Algum problema?

Daniel passou a mão pelos cabelos louros e revoltos do menino.

- Vamos entrar. Eu conto tudo para você...

Entraram e Raphael ainda teve que esperar um pouco, enquanto o amigo entrava na câmara de esterilização, lá deixava suas roupas de viagem, trocando-as por outras, mais leves.

Enquanto Daniel se trocava, Raphael, ansioso, encostou-se à entrada da câmara.

- Onde estão os outros? – perguntou em voz alta.

Lá de dentro veio a resposta.

- Ficaram. Eu vim rapidamente resolver uns problemas com o Grande Mentor e trazer algumas amostras, mas tenho que voltar logo. Uriel e Samael estão me esperando para iniciarem nossa nova missão.

- Esta nova missão ainda será no mesmo planeta?

- Ainda... As coisas por lá não vão indo bem.

A câmara de esterilização abriu-se e Daniel saiu, vestindo um macacão aluminizado. Pegou Raphael pela mão e dirigiram-se a um assento macio, em frente a uma mesa longa e baixa. Raphael mal continha sua ansiedade.

- Conte... Qual é o problema?

Daniel respirou fundo.

- Você deve se lembrar daquele dia em que Asachiel e Michael chegaram de uma missão e procuraram o Grande Mentor, com novidades. Lembra?

Raphael fez que sim com a cabeça. Lembrava-se muito bem. Os dois Colonizadores chegaram e procuraram o Grande Mentor às pressas. Pareciam ter descoberto algo muito importante. Mas ninguém teve o trabalho de lhe explicar o que era. Deixaram-no tão curioso... Coisa enjoada ser criança! E isto fazia pouco mais de um ano.

- Pois bem. Asachiel e os outros, na sua volta para cá, encontraram um sistema muito parecido com o nosso. Mas havia um grande problema com um de seus planetas. Era um dos planetas menores mas, apesar disso, apresentava um imenso perigo que poderia alastrar-se por uma parte enorme do Universo. Tudo indicava que seus habitantes haviam descoberto a desintegração do átomo e tinham provocado uma grande explosão.

Raphael sentiu um arrepio de horror percorrer sua espinha. Sabia bem o perigo que isto poderia provocar. Uma explosão nuclear era como uma doença, que alastrava seus gases mortais para outros planetas, para outros sistemas. Daniel continuou:

- O Grande Mentor resolveu então mandar uma expedição para ver o que poderia ser feito, no sentido de impedir a propagação dos gases venenosos. E fomos escolhidos. Partimos, há um ano, Uriel, Samael, Anael, Gabriel e eu, todos sob o comando de Elohim. Quando chegamos lá, a visão que tivemos foi terrível. O pequeno planeta estava completamente envolto em gases densos que, por sorte, ainda não haviam começado a se alastrar. A densidade era tanta que nem os raios do sol conseguiam penetrar. Julgamos então que não deveria mais haver vida, naquele lugar. Fizemos então aquilo que deve sempre ser feito, nesses casos. Emitimos uma forte intensidade de raios Epsílon, e com eles rapidamente dissolvemos a camada de gases. E então sentimos uma pena enorme, ao vermos o tamanho da destruição. O pequeno planeta estava arrasado. A pouca vegetação que sobrara não crescia, atrofiava-se longe do calor dos raios do sol. As águas todas contaminadas, o ar irrespirável. E então, para surpresa nossa, vimos surgir alguns seres humanos, remanescentes da grande catástrofe. Mas eram quase animais. Rostos apavorados, tremiam de medo à nossa aproximação e cobriam os olhos para esconderem-se da luz do sol que havíamos feito tornar a iluminar seu mundo. Quando se acostumaram à claridade, passaram a ver-nos com muito respeito. Entendemos que pensavam que éramos deuses. Melhor assim. Tornaria nosso trabalho mais fácil. Passamos, então, à nova etapa da missão, ou seja, a descontaminação das águas, e logo pudemos aglomerá-las, separando-as das terras. Com o sol, veio a natural evaporação e logo caíram as primeiras chuvas. Com as chuvas, espalhamos pela superfície terrestre uma forte vibração de raios Tseta e logo as plantas reagiram. Pudemos então semear amostras de sementes que trazíamos e vimos que era bom. Tudo cresceu e deu frutos. Nas águas lançamos ovos de animais aquáticos que, ao contato com nossos raios, nasceram e procriaram-se naturalmente. Aproveitamos alguns animais ainda existentes e provocamos várias mutações nas espécies. E com o ser humano, se é que se podia chamar àquilo de humano, provocamos alterações genéticas. Depois de algumas tentativas, conseguimos um bom protótipo andrógino, macho-fêmea. E veja que isso foi feito em pouco tempo. Sete dias, e estava tudo pronto. Descansamos, então, enquanto observávamos nosso trabalho evoluir naturalmente. Mas então percebemos que nosso humano andrógino não se harmonizava bem com a natureza de seu mundo, pois tudo ali era dual, masculino e feminino. Tivemos, então, que fazê-lo passar por um sono anestésico, enquanto modificávamos a estrutura de seus genes e também a de seu corpo. De seu organismo extraímos os elementos necessários para a criação de sua contraparte feminina. E, quando ele despertou novamente, estava modificado. Sua polaridade estava dividida. Ele era homem e dele havia sido criada a mulher. Mas foi então que esse casal invadiu nossos laboratórios e, inadvertidamente, causou um grande estrago num equipamento essencial que levávamos: a grande árvore de cristais que produzia raios vitais. Elohim, pela primeira vez desde que o conheci, ficou zangado. Os dois assustaram-se, fugiram e se esconderam de nós. Elohim achou melhor deixá-los à vontade, julgando que não os observávamos. Eles se reproduziram e sua descendência povoou vários locais do planeta. De vez em quando, aparecíamos a um deles, ensinando o que deveriam fazer. Sempre se assustavam com nossa aparição e adoravam-nos como se fôssemos deuses. Elohim, vendo que tudo estava indo bem, determinou que partíssemos para a exploração de outros planetas daquele sistema. Levamos apenas alguns dias fora, mas quando voltamos, notamos que os humanos estavam estranhos. Era como se um brilho de ódio estivesse sempre presente em seus olhares. Poucos ainda podiam conhecer o amor pela criação. Não gostamos do que vimos e tentamos fazê-los compreender que eram todos irmãos e que deviam amar uns aos outros. Mas eles já eram tantos, que nossa voz se perdia no tumulto de suas vozes. Escolhemos alguns para serem nossos mensageiros especiais, mas foram todos destruídos pelos próprios homens. Já não podíamos aparecer, como antes o fazíamos, pois, além de causarmos grandes confusões com nossa presença, inclusive mortes, eles queriam nos agredir a todo o custo. E então descobrimos, com grande horror, que haviam tornado a conhecer o terrível fantasma da matéria: a desintegração do núcleo do átomo. Uma explosão aconteceu e daí para frente aquele planeta que nós havíamos reconstruído com tanto amor, começou a mergulhar novamente no caos da destruição. Tentamos de todas as maneiras fazê-los compreenderem que a vida é construir e não destruir. Mas as grandes potências dos homens abafaram o som de nossa voz. Um ano se passou. Elohim está cansado, exausto, envelhecido. Precisa com urgência voltar. Decidimos, então, que só há uma maneira de evitarmos outra catástrofe nuclear: Vim para pedir reforços ao Grande Mentor, para dominarmos as potências humanas e impedirmos, desta maneira, outro caos atômico.

Raphael escutava, horrorizado.

- Não entendo... – disse - De que adianta aos Colonizadores levarem a civilização e o amor a certos mundos? Melhor seria destruí-los para sempre!

Daniel suspirou e tentou sorrir.

- Todos têm o direito de existirem, no plano material. Não podemos, simplesmente, destruir. Nosso dever é construir, colonizar. Dar a vida e não a destruição.

- E será que o Grande Mentor dará autorização para uma invasão? Ele é totalmente contra este tipo de solução, você sabe muito bem.

- Sim, mas creio que não há outra maneira de evitarmos a próxima catástrofe nuclear. Vou para o Grande Conselho agora mesmo. Não tenho muito tempo a perder... Pense em mim, pequeno Raphael. Espero estar muito em breve com você, novamente.

Daniel fez um afago no rosto apreensivo da criança. De repente, lembrou-se de algo e correu para a câmara de esterilização. Voltou de lá segurando, em suas mãos, um pequeno objeto. Estendeu-o a Raphael.

- Olhe só... Não me esqueci de você. Sei que coleciona objetos de todos os planetas. Trouxe-lhe isto ... É uma coisa usada para entreter as crianças daquele mundo.

Raphael esqueceu-se logo do grande problema e seu rosto se iluminou.

- Deixe-me ver...

Segurou o objeto entre os dedos, examinando-o.

- Você não me disse ainda o nome do planeta. Preciso saber, para catalogar este objeto.

- Nem me lembro com que nome os humanos o chamam, mas nós lhe demos o nome de Geremia, por causa do grande inverno em que o encontramos. Como você sabe, nossos antepassados chamavam de Geremia a todos os planetas gelados.

Daniel abaixou-se e tocou de leve com os lábios a fronte do menino.

- Adeus, pequeno amigo. Espero vê-lo em breve. Deseje-nos boa sorte!

Com um aceno saiu de casa e entrou novamente na esfera translúcida. Raphael saiu atrás dele e fez com a mão um gesto largo de adeus. Quanto tempo ainda se passaria, antes que seu melhor amigo pudesse retornar? Mais um ano?

Viu a esfera afastar-se e desaparecer no horizonte. E somente então voltou a dar atenção ao objeto que ganhara para sua coleção. Era bem interessante. Parecia um meio de transporte muito rudimentar, sobre quatro rodas. As partes laterais abriam-se, como portas bem antigas. Também a frente abria-se em sua parte superior, mostrando algo parecido com um motor. Aprendera um pouco sobre motores com o professor de arqueologia.

Revirou o objeto entre as mãos e viu, debaixo dele, alguns caracteres gravados. Examinou-os atentamente. Devia ser o código usado pelos humanos daquele planeta, tão perto de uma nova destruição.

Pegou no chão um graveto seco e tentou reproduzir os caracteres na areia branca. Depois voltou para dentro de casa, para catalogar e arquivar o novo objeto em sua coleção.

Algum tempo depois, alguém passou pelo local onde o menino se despedira de Daniel e viu, surpreso, escritos na areia muito branca os estranhos rabiscos que Daniel fizera:

MADE IN JAPAN

 

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