A CRIANÇA E O AMOR

 

Era uma criança muito pequena e muito triste.

Tão pequena, que o mundo inteiro

tomava proporções gigantescas  ante seus olhos amedrontados.

E as pessoas que a cercavam

cresciam como monstros disformes sempre prontos a devorá-la.

Tão triste,

que parecia abrigar em seu coração toda a tristeza do mundo,

e as lágrimas que lavavam seu rosto

não aliviavam a dor que lhe oprimia o peito.

Sofria de saudade...

Saudade daquela estrela bonita que brilhava nas noites limpas,

saudade do Sol, saudade do espaço.

E não encontrava na Terra o que preenchesse

o vazio que trazia na alma.

Vazio cheio de saudade,

vazio cheio de dor,

vazio cheio de pranto,

vazio cheio de escuridão.

E a criança caminhava pelo mundo,

tropeçando nos obstáculos criados pela matéria,

sujando os pés na poeira da estrada,

sujando o corpo na poeira da vida.

E quando chorava,

suas lágrimas banhavam-lhe o pequeno corpo

e ele resplandecia.

A criança olhava-se surpresa,

sem compreender, porém,

o porquê daquela névoa azulada

que a envolvia após o pranto.

E continuava a caminhar sozinha pela estrada,

com medo de enfrentar o mundo de gigantes

que a maltratavam.

 

Um dia, em sua caminhada, a criança viu uma luz

que deslumbrou seus olhos já acostumados às trevas.

Dirigiu-se para essa luz e viu-se envolvida por ela.

E dentro dessa luz viu um Ser,

lindo como aquela estrela que brilhava nas noites limpas,

lindo como o Sol,

lindo como o espaço.

Sua roupa de prata

brilhava mais que todas as luzes da matéria reunidas

e seus olhos,

Ah, seus olhos!...

A criança perdeu-se dentro daquele olhar

tão cheio de ternura, tão cheio de amor.

O estranho Ser sorriu e estendeu-lhe a mão.

Suas mãos se encontraram

e a criança sentiu uma torrente de Amor e de Luz

invadir o vazio de sua alma,

e seu coração, cansado de sofrer,

palpitou com  aquela torrente de vida

que começou a correr-lhe pelas veias.

E a criança, por instantes,

perdeu a noção do tempo e do espaço, subiu às estrelas

e o mundo onde vivia pareceu-lhe um pequeno ponto colorido

em meio  a milhões e milhões de outros pontos de luz.

Voltou à Terra trazida pela mão que segurava a sua

e quando olhou seu próprio corpo,

notou, surpresa, que crescera,

crescera tanto que os seres humanos,

que antes pareciam-lhe monstros imensos,

transformaram-se agora em pequenas e frágeis criaturas,

perdidas na escuridão.

Sentiu pena, sentiu Amor.

Estendeu os braços e envolveu-os a todos

num único abraço,

e deixou verter sobre eles todo o imenso amor

que lhe enchia o peito.

 

Depois, olhou em torno, à procura daquele Ser belo,

vestido de prata, de olhar terno,

e não o encontrou.

Sentiam, porém, nas mãos o calor de suas mãos,

sentia sua doce presença.

Mas onde estaria ele?

Foi então que olhou para dentro de si e o encontrou.

 

A Sabedoria Universal tornara-os um só,

reunira num único Ser,

a criança e o Amor.

 

A Criança e o Amor - "O Grande Encontro" de Márcia Villas-Bôas
Viagem Interior: O Segredo dos Deuses
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