A MISSÃO

Márcia Villas-Bôas

 

Polkan moveu-se ligeiramente dentro da ampola translúcida que protegia seu sono sem tempo. Seus olhos abriram-se lentamente e veio logo aquela sensação de desconforto. Olhou para o lado e não viu Shayna.

Abriu a ampola e saiu, ainda atônito. Sentia-se estranhamente vazio, sem Shayna. Procurou o Grande Mentor.

- Onde está Shayna?

O Grande Mentor apontou para as outras estrelas.

- Já partiu...

Polkan olhou-o dentro dos olhos.

- Não posso existir sem Shayna. preciso de sua polaridade para manifestar meu Eu. Como pôde permitir que ela partisse sem mim?

O Grande Mentor sustentou seu olhar penetrante.

- A missão dos Colonizadores muitas vezes os leva a freqüências inferiores. Lá, onde Shayna está agora, não se faz necessária sua presença física para polarizá-la.

Polkan fez com a mão um gesto largo.

- Nesta estrela que é meu lar, não posso viver sem Shayna. Não posso projetar também minha consciência nos corpos que habitam os planetas do nosso sistema. São todos andróginos. Precisaria também de Shayna. Grande Mentor, onde ela está?

- Num piscar de olhos, ela estará de volta...

- Mas meus olhos, longe de Shayna, nem vida terão mais...

O Grande Mentor apontou novamente para as estrelas.

- Vá, então, e, se puder, encontre-a. Ela está muito longe, do outro lado do Infinito, no Universo de matéria. O nome do todo é Via Lactea, sua estrela é o Sol e o planeta se chama Terra.

Polkan estendeu os braços para o alto e lançou-se na imensidão.

Viajou pelas estrelas, pelas nebulosas, varou o Nada em uma viagem onde o Tempo ainda não existia. E então ele viu aquela galáxia oval. Aproximou-se mais e, lá no canto, viu um pequeno sol. Chegou mais perto, e então notou o planeta azulado.

Sua mente chamou por Shayna.

De algum lugar, no planeta azulado, escutou a voz de Shayna que lhe respondia. Localizou a resposta. Vinha daí, daquele continente triangular, daquele país bem grande.

E Polkan foi chegando perto, cada vez mais perto...

E então, para Polkan, o Tempo começou a passar.

O mesmo Tempo que iniciou a existir para Polkan, já contava há muito os dias de Shayna. Quando ela ouviu seu chamado, o corpo em que vivia era ainda de criança. A criança inquietou-se. Olhou em torno, e sentiu que seu lugar não era ali. Era junto de Polkan, em algum outro lugar da imensidão. Seus olhos procuravam, no céu, encontrar sinais de Polkan, seus olhos procuravam a vida de Polkan em todos os olhares que pousavam nos seus.

O corpo de criança em que Shayna habitava cresceu, virou mulher. De dentro de seu ser, escutava a voz que guiava seus passos e mostrava a ela sua Missão na terra. Os Colonizadores tinham-na instruído em detalhes. Olhava em volta e sentia-se tão só, olhava para dentro e escutava o planejamento de sua Missão, olhava para o alto e sentia a presença invisível dos Colonizadores, olhava para todos os humanos e tentava achar entre eles os olhos de Polkan. Às vezes, quando sua alma ia ao encontro das estrelas, sentia consigo mesma a presença de Polkan. Via-o a seu lado e juntos, de mãos dadas, brincavam entre as estrelas. Ou então, olhavam-se nos olhos e deixavam que seus seres se unissem em um só Ser. Mas quando voltava à sua vestimenta física, tudo era saudade, tudo era angústia. E seu corpo se retorcia, flagelado pela dor sagrada. Erguia-se da dor, banhada em luz, e continuava trabalhando na Missão que os Colonizadores haviam lhe confiado.

Mas até mesmo os Colonizadores um dia compreenderam que Shayna e Polkan não poderia suportar por muito mais tempo do tempo que viviam, sem se olharem nos olhos, sem se tocarem os corpos, sem se doarem as forças que já se perdiam pelo afastamento.

E, do Infinito, deram a ordem de reunir.

Todas as forças ocultas aos humanos foram movimentadas ao brado dos Colonizadores. Agitaram-se as consciências de todos os planos, os gnomos esconderam-se nas rochas, as ondinas mergulharam fundo nas águas, os silfos estremeceram quando o ar que os fazia viver vibrou mais forte.

Shayna escutou a ordem vinda do Infinito e descobriu onde, enfim, encontrar Polkan.

E lá, naquela estrela muito longe, no outro lado do Infinito, o Grande Mentor sentiu em sua mente chegar uma mensagem. Vinha daquela galáxia distante e oval, de um planeta muito pequeno chamado Terra. A mensagem dizia:

- Colonizadores, saibam todos que nossa Missão neste local será cumprida com êxito. De nossos corações acaba de nascer um sentimento que os humanos já não mais conheciam em sua pureza original. E este sentimento vibra, pulsa, espalha-se à nossa volta numa onda crescente que purifica todos os planos por onde passa. Colonizadores, o caminho para sua chegada está limpo e purificado. Renasceu o Amor no planeta Terra. Polkan encontrou Shayna!

O Grande Mentor deixou seu olhar perder-se no Infinito.

E sorriu.

 

* * *