UM MOMENTO NA VIDA DE UM HOMEM
Márcia Villas-Bôas
Sou brasileiro, casado, tenho 28 anos e dois filhos lindos. Procuro ser um bom cidadão e respeito as leis de meu País. Sou funcionário público e tento dar à minha família tudo o que ela precisa.
Minha vida resumia-se na terrível rotina do dia-a-dia . Já amanhecia cansado. Depois, passava horas numa repartição, rodeado de processos, documentos, papéis, amolações, reclamações. Agüentava o mau- humor do chefe, as piadas dos colegas, a vida, a lida, o inferno.
Ruas barulhentas, buzinas, gritos, palavrões, fumaça, poeira, poluição. O caos da civilização. Sentia-me tenso como um balão de gás prestes a estourar. Quando a tensão tornava-se quase insuportável, enchia-me de sedativos, na tentativa de adiar um pouco mais a explosão inevitável.
Minha mente, perdida na noite negra da agitação moderna, vagava entre aborrecimentos e problemas aparentemente sem solução para mim. E, quando chegava em casa, cansado, exausto, via-me cercado de contas a pagar, cobradores, queixas das crianças, reclamações dos vizinhos. Minha mulher, coitada, esforçava-se em vão para me agradar.. Seus olhos, porém, transmitiam uma força estranha. Havia neles um brilho diferente, eram profundos, penetrantes e pareciam olhar através das coisas. Às vezes, acariciava minha cabeça e murmurava baixinho:
- Por que não me deixa ajudá-lo?
Eu apenas sorria. Ajudar, como?
Eu amava minha família e creio mesmo que foi esse amor que me fez sobreviver àquele emaranhado de angústias e atribulações.
Mas um dia, tudo mudou em minha vida. E é a história deste dia que eu vou contar a vocês. A história da coisa mais fantástica e maravilhosa que já me aconteceu.
Era um dia como todos os outros. Acordei atrasado. O despertador não tocara ou, talvez, tivesse tocado e eu, cansado, não o escutara. Vesti-me apressadamente, tentando escapar dos pedidos insistentes de meu filho que me perseguia com um aviãozinho quebrado. Queria que o consertasse.
- Espera, meu filho, papai agora não pode!... Papai está atrasado, papai tem que trabalhar!
O menino fez um beicinho e ficou parado à porta, vendo-me partir. Tive pena dele, mas o que fazer? Estava em cima da hora!
Foi um dia cheio, mas consegui sair da repartição mais cedo do que de costume. A tarde estava maravilhosa e resolvi passear um pouco antes de voltar para casa. Não adiantaria mesmo chegar assim tão cedo. Àquela hora as crianças ainda estavam no colégio e minha mulher, provavelmente, ainda não chegara do trabalho. Quis ir a um cinema, mas não achei um firme que me agradasse.
Comecei, então, a dirigir sem destino. Fui pela beira da praia, olhando o céu, o mar, respirando o ar salgado. O vento fresco que batia em meu rosto fez-me bem. Senti-me um pouco relaxado de toda aquela tensão diária e continuei andando sem destino, relaxando-me cada vez mais,.
Afastei-me do movimento urbano e, sem precisar prender a atenção a um trânsito intenso, pude deixar minha mente vagar, despreocupada. Uma calma doce e intensa apossava-se de meu ser, e um suave calor percorria-me a espinha e espalhava-se por todo o meu corpo. Parecia-me sentir o funcionamento de todos os meus órgãos internos e escutava o surdo pulsar do coração no meu peito.
De repente, senti uma forte tonteira. Sem conseguir mais guiar, parei o carro. Fechei os olhos e respirei fundo. Minha cabeça girava loucamente e o coração saltava como se quisesse fugir pela boca. Pensei que ia morrer e o mais estranho é que a aparente proximidade da morte não me causou medo. Ouvi um assobio penetrante que parecia sair de meu cérebro e tomar conta de todos os meus sentidos. E eu rodava, numa espiral sem fim que me levava para dentro de mim mesmo. Minha respiração tornou-se mais lenta, todas as minhas forças fugiram, e fiquei incapaz de mover um só músculo do corpo. E o assobio penetrante aumentava dentro de minha cabeça e eu girava, girava...
Subitamente, fui lançado para fora do meu carro. Vi-me de pé, ao lado da estrada, sentindo meu corpo leve como uma pluma e tudo em volta pareceu-me tão lindo! O verde das plantas era mais verde e o azul do céu mais profundo. Os tênues raios do sol, que já principiava seu mergulho atrás dos montes, cristalizavam-se nas gotículas do orvalho que começava a cair nas flores, nas matas, no mundo, e o calor do astro-rei dizia a todas as coisas sobre a Terra: Existe ainda a Vida!... Era um recado cósmico de Amor.
E foi aí que iniciou a minha jornada. Comecei a andar sozinho, sem compreender porque estava só. Não entendia bem as coisas e tudo me parecia um pouco confuso, apesar de belo. Foi aí que eu a encontrei. Olhava-me, sorrindo, e seu rosto parecia-me estranhamente familiar , iluminado pelo brilho dos seus olhos, aquele brilho diferente, aquele olhar profundo, penetrante, como se olhasse através das coisas. Foi então que a reconheci, apesar de um pouco mudada, com sua beleza mais etérea e diáfana. Tomei-a pela mão e saímos de mãos dadas, juntos, através das formas e das coisas, através da beleza da natureza, expressa em coloridos sem par.
Depois que suas mãos tocaram as minhas, senti uma diferença dentro de mim. Comecei a compreender porque existia uma flor, porque existia o sol, e porque eu estava ali. Passeamos, e ela me falou das coisas da natureza. Mostrou-me como os ventos são agradáveis em forma de brisa, e como são perigosos em forma de tempestade. Mostrou-me a beleza das nuvens, os reflexos da luz solar nas gotas de orvalho, mostrou-me o encantamento das aves em liberdade, e mostrou-me também os homens, a humanidade em seu egoísmo, e fez-me compreender o quanto ela está perdendo, cega para coisas maravilhosas da Natureza. E, a cada momento, apertava mais a minha mão e acariciava-me a alma com sua voz suave. Interessante, havia na sua voz uma doçura quase infinita, tênue e bela. E ela continuava a me falar, e falou-me de Amor, de um Amor que eu jamais havia encontrado na terra: falou-me do Amor Universal, tão impessoal, que existe assim como existe a Vida, que nada exige e nada oferece.
Meditei um pouco, novamente continuamos a passear e fui levado a vários estados de alma, sempre segurando a sua mão. E assim, percorremos todas as coisas da natureza. Depois, começamos a correr pelos astros, pelas estrelas, pelo espaço cósmico sem fim. Era tudo tão familiar para mim, era tudo como se fosse parte de nós mesmos. E ela não soltava a minha mão.
De repente, não sei em que lugar do mundo ou do Universo, pois as dimensões há muito haviam cessado, ela olhou para mim, eu olhei para ela, e fomos atraídos um para o outro. E nossos seres reuniram-se num único e estranho ser.
Fechei os olhos, entregando-me a uma nova e fantástica sensação. Sentia-me intensamente feliz, e essa felicidade parecia crescer, inundar todo o meu Ser, escapar de mim e envolver o Universo inteiro. E eu, ser completo e andrógino, percorri o espaço infinito, sentindo-me crescer a cada passo, crescer muito, vendo e compreendendo todo o funcionamento universal, vibrando no ritmo Cósmico.
E então eu vi o sol, enorme, brilhante, e senti que ele pulsava, cheio de vida. E seus raios penetraram em meu corpo, enchendo-me de uma energia intensa, fantástica. Não sei quanto tempo permaneci extasiado ante aquela fonte de Vida e de Luz, sentindo-me uma parte do Sol Universal.
Depois, fui perdendo a consciência de mim mesmo, fui perdendo a consciência de ser andrógino, fui perdendo lentamente a consciência de ser Universal e senti-me novamente arrastado à espiral que girava, girava...
Abri os olhos e vi-me sentado em meu carro. Olhei em volta, nada mudara... Tentei compreender o que acontecera. Teria sido um sonho? Um delírio? Olhei meu rosto no espelho retrovisor. Tudo parecia normal. Havia apenas um brilho diferente em meus olhos. Eram agora mais profundos, mais penetrantes, pareciam olhar através das coisas.
Escurecia. O sol, no mundo se punha; mas, para mim, ele nascia em toda a sua resplandecência. Era a aurora de uma nova vida, era o sol interior que despertara, imenso e fantástico em seu esplendor, transformando-me a consciência de ser humano na consciência de ser universal. E eu sorri, minha alma sorriu, todo o meu ser sorriu, saudando aquela magnífica aurora.
Eu tinha a impressão de que morrera e, depois, ressuscitara para uma nova vida, uma vida de compreensão do mundo, uma vida de compreensão das leis divinas.
Tudo agora parecia tão belo e tão fácil de entender. A vida era maravilhosa e fácil de ser vivida! Respirei profundamente. Não sabia se devia agradecer, ou se devia apenas continuar vivendo. Preferi a segunda hipótese; a primeira pareceu-me falsa, pois sentia-me no Universo, sentia o Universo dentro de mim, e não podia agradecer a mim mesmo.
Estendi a mão lentamente e liguei a chave do carro. O ronco do motor trouxe-me à realidade. Arranquei devagar, sem pressa de voltar à cidade, à civilização agitada. Pelo caminho, outros passaram por mim, numa pressa louca. Pressa, por que? Eu não entendia... Tinha a cabeça ainda tão confusa.
Em poucos minutos entrei no trânsito pesado. Ruídos ensurdecedores, buzinas, fumaça, poeira, poluição. No entanto, nada disso me afetava.
Lembrei-me do meu trabalho, da minha vida diária, das piadas dos colegas, do mau-humor constante do chefe, e nada disto me abalou. Tive apenas muita pena deles, muita pena da humanidade inteira, perdida na noite negra da ignorância de fenômenos tão fantásticos. E tive vontade de ajudá-los a passar pelo que eu havia passado. Mas, como? Eu não sabia... Sabia apenas que, daí por diante, eu continuaria vivendo a mesma vida que vivera até então, rodeado de incompreensão, de misérias, de tristezas, mas eu teria meu mundo à parte de tudo isto: o meu mundo interior. Porque lá, no interior de mim mesmo, eu encontraria sempre a Vida, a Luz e uma Paz muito profunda. Lá, no interior de mim mesmo, eu encontraria sempre o Universo inteiro à minha espera, de braços abertos, aguardando o filho que voltara à origem, que voltara ao Pai.
Eu sabia que, daí por diante, eu teria que viver só comigo mesmo e com minha família, pois meus colegas e amigos jamais entenderiam minha nova vida. Mas eu não me importava com isto. Tentaria apenas, por todas as maneiras, levá-los ao encontro com eles mesmos, ao encontro com o Deus de seus corações.
E continuei guiando meu carro através das ruas barulhentas, através do caos da civilização, sentindo-me enorme e amando, amando profundamente o mundo inteiro, o Universo inteiro. Senti que crescera, que crescera muito, e mentalmente estendi os braços e envolvi num abraço todas as criaturas humanas, que agora pareciam tão pequeninas e frágeis. E, neste abraço gigantesco, deixei verter sobre eles todo o imenso amor que me enchia o peito.
Segui guiando meu carro pelo trânsito intenso, sem me importar mais com os ruídos ensurdecedores, sem me importar mais com a fumaça, com a poeira, com a poluição, sentindo uma Paz interior tão profunda, que nem mesmo o desmoronar do mundo inteiro poderia abalar.
Quando cheguei em casa, ansioso por contar à minha mulher a maravilha que se operara em mim, vi meu filho que me esperava com seu aviãozinho quebrado.
Minha mulher olhou-me e sorriu, e seu sorriso disse-me aquilo que eu queria confirmar: ela já sabia da minha transformação, ela participara conscientemente da minha fantástica jornada.
Meu filho olhou-me suplicante e pediu:
- Papai, conserta meu aviãozinho?
Apertei-o nos braços num doce abraço e depois, de mãos dadas, fomos consertar um pobre aviãozinho quebrado.
* * *