OS TRÊS PEDIDOS

Márcia Villas-Bôas

Nilza conferiu mais uma vez os bicos de gás da cozinha e do banheiro, antes de sair.

- Meu Deus – pensou – esta minha cabeça oca nunca me deixa lembrar se desliguei ou não o gás. Bolas!...

Estava tudo direitinho. Saiu apressada e procurou com os olhos o painel luminoso do elevador.

- Droga! Está lá em baixo!... Daqui que suba, perco o ônibus!

E despencou pela escada mesmo. Já na calçada parou, assustada.

- Gente!... Será que tranquei a porta?

Teve vontade de gritar de raiva. Porque nunca prestava atenção naquilo que fazia? Era difícil lembrar-se das pequenas coisas, aquelas que são feitas maquinalmente. Sua cabeça estava sempre longe, muito longe...

- E agora? Se volto, me atraso demais...

Olhou para o relógio e decidiu-se. Não iria voltar. A porta devia estar fechada. Apressou o passo e deteve-se no ponto de ônibus.

Sentada, por sorte, ao lado de uma janela, desligou-se com facilidade do calor, do acotovelamento dos passageiros que, em pé no corredor, equilibravam-se com dificuldade, e mergulhou em seu universo interior.

Já se acostumara com a solidão. Depois que deixara a família e viera para o Rio em busca de liberdade, não conseguira encontrar amigos. Apenas conhecidos ou colegas de trabalho, todos mantendo um cruel afastamento daquela desajeitada, feia e distraída matuta.

O pequeno conjugado em que morava era todo o seu mundo. Ali vivia seus sonhos e chorava seus desencantos. Ali imaginava loucas aventuras, conquistas audazes e via-se cortejada por intrépidos heróis, que louvavam sua beleza e sua inteligência.

Mas seu espelho e seu dia-a-dia mostravam-lhe outra realidade. Era sempre a pobre desajeitada que, quando passava, despertava risos e chacotas.

- Como é, Nilza, o que foi que esqueceu hoje?

O motorista parecia endemoniado. Freiava, acelerava, entrava nas curvas jogando o ônibus através do trânsito pesado. Segurando com força a barra metálica à sua frente, procurava não cair sobre seu corpulento companheiro de viagem que, apesar dos trancos, dormia com a cabeça pendendo sobre o peito farto. Deu graças a Deus quando chegou. Desceu espremendo-se e pedindo desculpas à medida que ia tropeçando e pisando nos pés que se apinhavam no corredor sujo.

Quando entrou no escritório, não percebeu o ar de cumplicidade dos colegas. Mas logo notou algo estranho, quando viu um pequeno embrulho sobre sua mesa. Olhou em volta, desconfiada. Uma risadinha fina veio de algum lugar, ao mesmo tempo que aquela loura de cintura apertada chegava, rebolando.

- Para você, meu bem, não vai abrir?

Suspeitou logo de alguma brincadeira boba, mas não quis dar o braço a torcer.

- Para mim? Por que? Não faço aniversário hoje...

A loura sentou o traseiro roliço sobre sua mesa.

- E precisa ser aniversário para lembrarmos de uma colega tão querida?

Nilza pegou o embrulho e desatou o cordão dourado. O papel saiu estalando e deixando ver uma caixa de papelão, bem simples, sem nada escrito. Abriu a caixa com cuidado. Dentro havia um pequeno frasco, no formato de uma lâmpada de Aladim, cheio de um líquido amarelado. No frasco, uma etiqueta dizia: "Bagdad – o aroma inesquecível". Nilza olhou para a loura, procurando entender a piada. A outra, muito séria, explicou:

- É um perfume artesanal, feito por um feiticeiro. Dizem que quem o usa, fica irresistível, inteligente e inesquecível. Que tal, gostou?

Todos caíram na risada. Nilza sentiu o sangue subir ao rosto, trazendo um calor quase insuportável. Mas manteve-se inalterável.

- Gostei muito. Fico lisonjeada com a lembrança de vocês. Prometo usá-lo todos os dias.

E abriu o frasco. Um cheiro forte e adocicado encheu o ambiente. Lá de trás, um gaiato deu o seu palpite:

- Mas não é para usar no trabalho, não! Só quando for passear, ouviu?

Outro coro de risadas. Por fim, a brincadeira perdeu a graça e sentaram-se todos para trabalhar.

O dia transcorreu quente e pesado. Sobre sua mesa, o pequeno embrulho não a deixava esquecer a animosidade dos colegas. Procurou manter-se quieta, sem chamar atenção sobre sua pessoa. No fim do dia, escondeu apressadamente o embrulho no fundo da bolsa e saiu, sem se despedir de ninguém.

Quando entrou em seu pequeno mundo, encostou-se à parede e sorriu. Estava em casa, afinal. Esvaziou a bolsa sobre o sofá, tirou o frasco de dentro da caixa de papelão e colocou-o sobre a mesinha. Tomou um banho e enfiou-se numa roupa mais fresca. Comeu um sanduíche. Ia ligar a televisão quando se lembrou do vidro de perfume. Sentou-se e ficou olhando a pequena lâmpada de Aladim, distraída, procurando não se importar com a brincadeira boba de que fora alvo. Sua mente, aos poucos, foi se enchendo de fantasias coloridas. Os personagens das Mil-e-Uma-Noites começaram a invadir sua solidão, trazendo o doce encanto de suas aventuras. Sorriu e fechou os olhos.

- Puxa, bem que esta lâmpada podia ser autêntica. Seria tão bom se eu tivesse o direito de fazer três pedidos... Mas o que pediria? Nem sei... Beleza, inteligência, dinheiro?... Acho que melhor seria alguém para me fazer companhia. Às vezes me sinto tão só...

Abriu os olhos e pousou-os novamente sobre o vidro. Notou, espantada, que ele brilhava com mais intensidade. Esfregou-o, com cuidado. Uma luz dourada emanou do frasco e envolveu suas mãos. Recolheu o braço, assustada.

- Credo! Acho que estou vendo coisas!

Mas ouviu si uma voz imperiosa, que lhe dizia:

- Tem o direito de fazer três pedidos! Faça logo o primeiro!

Olhou em volta, procurando quem falava.

- Rápido! – exclamou a voz misteriosa.

- Bem – balbuciou a moça – acho mesmo é que estou ficando biruta. Mas tudo bem, vou fazer um pedido... Deixe-me ver... O que pode ser? Ah! Já sei! Quero um companheiro lindo e forte, que me ame muito, que me ampare e me dê confiança...

Mal acabou de falar e a lâmpada de vidro estremeceu, saltitou e tombou sobre a mesinha. Nilza, cheia de medo, levantou-a cuidadosamente e coçou a cabeça, desconfiada. Minutos depois, escutou a campainha da porta soar insistentemente. Espiou pelo olho mágico, antes de abrir.

- Quem é, perguntou, cheia de receio.

- É da casa de antigüidades! Sua encomenda chegou.

Fechou a corrente de segurança e abriu só uma fresta, cuidadosamente. Três homens equilibravam um embrulho enorme e um deles entregou-lhe um papel para assinar.

- Não pedi nada – protestou a moça. – Deve ser engano.

O homem, impaciente, não queria perder tempo.

- Não senhora, é aqui mesmo – resmungou. – Assine aqui.

Nilza conferiu o endereço no papel que lhe era estendido. Era mesmo o seu. Seria outra brincadeira dos colegas? Assinou o papel e escancarou a porta.

Os homens saíram, deixando aquele trambolho imenso atravancando sua diminuta sala. Chegou-se, curiosa, e rasgou o papel grosso que escondia aquele mistério. Arregalou os olhos. A estátua de um jovem deus grego, em tamanho natural, revelou-se ante sua incredulidade.

- E agora o que é que eu vou fazer com isto?

E desabou no sofá, sem conseguir desviar a atenção do corpo talhado em pedra-sabão, que ostentava sua nudez casta e gelada. Pouco a pouco, sem que percebesse, um torpor começou a tomar conta de seus sentidos. Fechou os olhos e sentiu vagamente que todo o seu corpo parecia anestesiado. Procurou mover uma das mãos, mas ela pesava como chumbo. Deixou-se levar por aquela languidez estranha até que, de repente, mesmo com os olhos fechados, pôde ver todo o ambiente que a rodeava. Uma névoa azulada envolvia a estátua e escorria até seu próprio corpo, que se tornava incrivelmente leve. Sem espanto e temor, viu que a pedra-sabão ia tomando uma coloração rosada e que um ar de vida animava as feições do jovem. E viu quando ele se moveu, estendendo para ela os braços musculosos. Segurou as mãos que aguardavam as suas e levantou-se naquele mundo de sonhos. Juntos, viajaram no tempo e no espaço, conheceram outros universos, tornaram-se parte um do outro, flutuaram no nada e fizeram amor num tapete de estrelas. Ela, feliz, já nem se lembrava mais de sua aparência nem das brincadeiras tolas dos colegas. Vivia, apenas, e amava. Perdeu sua própria identidade e fundiu-se àquele corpo forte que a aquecia.

Aos poucos, porém, uma réstia de consciência objetiva invadiu seus devaneios e ela pensou:

- Estou tão feliz... Será que preciso acordar de um sonho tão maravilhoso?

Seus membros adormecidos foram retomando a sensibilidade e ela acordou. Abriu os olhos e viu, no meio da pequena sala, a estátua que a observava com aquele ar morto e frio. Teve vontade de chorar. Subitamente, lembrou-se da lâmpada e esfregou-a novamente.

- Tenho ainda dois pedidos, não é? Pois quero que ele se torne real, tão humano quanto eu!

Novamente a lâmpada de vidro iluminou-se e estremeceu. No mesmo instante, a estátua coloriu-se e movimentou-se. Olhou, cheia de admiração, aquela beleza máscula e pura, serena como o Adão de Michelangelo. Sorriu e estendeu-lhe a mão. O rapaz olhou-a, surpreso e, antes mesmo de segurar a mão que ela lhe oferecia, contemplou o pequeno mundo que o cercava. Foi à janela e olhou para fora. Pareceu não admirar-se com o movimento da cidade. Depois de alguns instantes voltou-se e fechou as cortinas. Nilza levantou-se, cheia de amor, louca para continuar a maravilhosa aventura que vivera em sonhos. Ele olhou-a de cima em baixo e sorriu de leve.

- Você agora é minha – falou em tom baixo, mas decidido. – Vou torná-la feliz, serei seu amo e senhor.

Nilza recuou, espantada. Não encontrava mais em sua voz a doçura que sentira no sonho.

- Vou protegê-la – continuou ele – e não permitirei que participe do mundo lá fora, tão frio e cruel. Aqui terá todo o meu amor e me dará sua completa dedicação.

Ela procurou aproximar-se mais dele.

- Não preciso de proteção – falou baixinho – quero apenas senti-lo uma parte de mim mesma, quero que me ame como me amou há pouco, como se fôssemos um só ser.

Ele deu uma risada.

- Você é mesmo uma sonhadora. A vida não é só isso, menina. E eu vou ensiná-la a viver, vou defendê-la do mundo, afastá-la definitivamente de todos os que lhe causam sofrimentos e fazer com que viva somente para mim. Aprenderá a me servir e terá então todos os prazeres que sempre imaginou.

Ela sentiu os olhos encherem-se de lágrimas.

- O único prazer que quero é encontrar novamente a delicadeza de sua alma.

Ele riu novamente.

- Minha alma está aqui – e bateu no peito – aprisionada neste invólucro humano. Deixarei que ela lhe fale, de vez em quando, se é isso que deseja. Mas não se esqueça de que tenho uma vida para viver e não poderei perder tempo com tolos devaneios.

Nilza sentou-se e fechou os olhos. De repente sentiu-se presa, tolhida, viu-se como uma propriedade subitamente adquirida e que seria manipulada à vontade por um senhor rígido e frio. Sentiu saudade das ruas, do ônibus apertado e dos colegas que, apesar de tudo, não ameaçavam sua liberdade.

- Meu Deus – pensou - onde ficou todo aquele amor?

Ele escutou seus pensamentos e respondeu:

- Muito amor é pura perda de tempo... Você precisa ser mais prática, tem que aprender a sobreviver na selva de pedras, a ser mais atenta naquilo que faz. Muito sentimentalismo não a ajudará em nada.

A moça respirou fundo. Olhou o rosto impassível do rapaz e tomou uma decisão. Lentamente, estendeu a mão para a lâmpada de vidro sobre a mesinha. Esfregou-a com cuidado.

- Tenho ainda um último pedido. Quero que tudo volte a ser como era antes.

Outra vez o frasco iluminou-se, sacudiu-se num forte tremor, saltou para o chão e espatifou-se em mil pedaços. Um cheiro doce e enjoativo encheu imediatamente todo o aposento. Nilza abaixou-se rapidamente para catar os cacos e, quando ergueu os olhos viu a estátua de pedra-sabão imóvel, no centro da sala, olhando-a com seus olhos inexpressivos. Abriu e fechou a boca várias vezes, sem conseguir emitir som algum. Ainda estava estatelada, com os cacos na mão e os olhos pregados no rapaz de pedra-sabão, quando ouviu a campainha soar, estridente. Colocou os cacos sobre a mesinha, levantou-se sem perceber direito o que fazia e foi somente quando chegou à porta que voltou à si e perguntou quem era.

- É da loja de antigüidades, dona. Houve mesmo um engano e viemos buscar a mercadoria.

Os homens saíram, levando a estátua e Nilza ficou parada, com o olhar distante pousado no meio da sala, naquele espaço para sempre vazio mas cheio de paz e de liberdade. Depois de algum tempo, suspirou:

- Ora essa, eu me esqueci de perguntar o nome dele...

* * *