A PÉROLA
Márcia Villas-Bôas
Memkhet, médico do Faraó, deixou o palácio e foi acudir Lephta, uma pobre ostra que, sufocada com uma enorme pérola, queria doá-la para que fosse trocada por alimento que saciasse a multidão de famintos. Ao vê-lo, Lephta sorriu.
- Que bom, que alegria! Tire minha pérola, doutor, pois sozinha sou incapaz de fazê-lo. Nazir, o mercador, passará por aqui dentro em pouco, e quero que troque por alimentos para os necessitados.
O médico tirou de sua sacola seus instrumentos cirúrgicos e aproximou-se da ostra. Mal conseguiu tocá-la, porém, e logo o Rei dos Mares ergueu-se das ondas, esbravejando:
- Não toque em Lephta sem minha permissão! E como ousa cobiçar-lhe a pérola?
Memkhet olhou-o serenamente e retrucou:
- Sou um médico e é minha função salvar vidas. Se não livrá-la da pérola, ela sufocará.
O Rei dos Mares respingou espuma para todos os lados e rugiu:
- Todas as ostras têm pérolas e nenhuma se sufoca! Não sou assim tão idiota quanto supõe! O que você quer, a ostra ou a pérola?
O médico suspirou, pacientemente.
- Nem uma coisa e nem a outra. Preciso apenas soltar a pérola. Depois, Lephta fará com ela o que quiser.
Os rugidos aumentaram e tornaram-se mais ameaçadores:
- Ela não sabe o que quer! É apenas uma pobre ostra, sob minha proteção! Eu sou o Rei dos Mares, senhor de todos os seres aquáticos! Não permito que toque naquilo que me pertence!
Lephta, até então calada, murmurou timidamente:
- Por favor, meu senhor! Permita que o médico que chamei me livre deste incômodo. Sinto minha pérola tão enorme em minhas entranhas que mal posso respirar. A luz que ela emite é intensa e cega meus olhos. Mas sei que ela é valiosa e que poderá saciar a fome de muitos. Deixe que seja entregue aos que dela necessitam!
Toda a majestade aquática agitou-se, tremeu e cuspiu alvas espumas, espargindo no médico e na ostra a sua agressividade molhada.
- Pois muito bem, já que quer assim, assim será! Mas fique avisada de que será banida do meu reino! Nunca mais retornará a meu seio e o sol escaldante em pouco tempo fará com que se transforme num fóssil inútil e ressecado!
O médico quis protestar, mas o Rei dos Mares retornou rapidamente à sua mansão e o oceano voltou a mostrar sua serenidade azul.
- E agora, - choramingou Lephta o que será de mim? Se não retornar ao mar, certamente morrerei! Pelo menos, levarei comigo a certeza de ter alimentado os famintos. Extraia a minha pérola, doutor!
Memkhet curvou-se e, com muito cuidado, destacou a pérola, que brilhou intensamente na palma de sua mão.
- Por todos os deuses! exclamou o médico, perdendo-se no fulgor cintilante da enorme pérola. Parece uma estrela do céu! Tem certeza de que quer doá-la à multidão esfaimada?
Lephta esboçou um sorriso angelical e triste.
- De nada me adianta toda esta plenitude, se não puder dividi-la com os necessitados. Ajude-me, doutor, pois o sol ardente já começa a me deixar fraca.
Nisto escutaram, ao longe, um ruído de sinos que se aproximavam. Olharam e viram Nazir, o mercador, e seus dois gordos camelos enfeitados de fitas e guizos. A cada passo lento e bamboleante, os guizos soavam e enchiam o ar com uma cascata de sons agudos. Bem atrás do mercador, mal surgindo do horizonte, a multidão de famintos rumorejava, produzindo uma longínqua e ininteligível zoada.
O mercador foi chegando.
- Nazir! chamou Lephta Por favor, ouça-me!
Nazir parou e olhou a ostra com curiosidade.
- Nazir, - continuou Lephta gostaria de vender-lhe minha pérola. Em troca, quero que alimente a multidão de famintos.
O mercador pegou a pérola, olhou-a, e deu uma sonora gargalhada.
- Ora essa, minha pequena amiga! Acredito que não será possível fazermos negócio desta maneira. São tantos os famintos que nem cem pérolas como esta bastariam para comprar alimentos suficientes para saciá-los. Se quiser, poderei trocá-la por este lindo jarro. É de ouro, muito valioso.
E tirou de uma das sacolas amarradas às costas do camelo mais próximo, um vaso dourado.
- Não, Nazir agradeceu a ostra, entristecida. Jamais trocaria minha pérola por um jarro vazio, mesmo sendo tão precioso.
O mercador sacudiu os ombros, guardou o vaso novamente, devolveu a pérola e segurou as rédeas dos camelos.
- Muito bem, amiguinha... Desejo-lhe sorte! Vamos, vamos!...
Fez com a boca um ruído estalado, chamando os animais, e continuou seu caminho seguido pelos camelos gordos, que balançavam seus sinos pelas areia quentes.
A multidão de famintos aproximava-se. Já estava tão perto que era possível até distinguir-lhes o brado que fazia vibrar em ondas quentes o calor que os envolvia:
- Temos fome!... Queremos alimentos!...
A ostra lançou a Memkhet um olhar suplicante.
- E agora, doutor? De nada adiantou tanto sacrifício. Sinto-me morrer e nem ao menos tenho meios de alimentar os famintos.
O médico olhou-a, cheio de pena.
- Haveremos de encontrar uma maneira. Deixe-me pensar...
Distraído, segurou a pérola entre as mãos e deixou-se mergulhar na luz que dela emanava. Sentiu no meio da testa uma pressão estranha e percebeu que sua mente se enchia de luz. De repente, como que movido por um impulso superior à sua própria vontade, pegou a ostra, beijou sua concha lustrosa e jogou-a de volta ao mar.
A fúria do Rei dos Mares logo se fez notar através de um rugido que salpicou de espumas o rosto sereno de Memkhet. As águas contorceram-se e subiram aos céus em altas e ameaçadoras ondas. Os peixes, assustados, abandonaram as profundezas do oceano e começaram a riscar de prata a sua superfície, saltando e tornando a mergulhar.
A multidão de famintos quedou-se, atônita, ante aquela inesperada visão.
- Olhem! gritou um deles, apontando para o mar. Olhem quantos peixes! Acabou-se a nossa fome! Vamos, companheiros, vamos pescar!...
Memkhet sorriu ao ver aqueles pobres famintos lançarem-se ao mar, improvisando redes e anzóis. Depois, disse baixinho:
- Veja, Lephta... Você conseguiu o que tanto queria!
Num gesto carinhoso, afagou a pérola que lhe restara como lembrança de Lephta, e guardou-a para sempre bem junto do coração. Deu um último olhar ao mar revolto e, lentamente, retornou ao palácio do Faraó.
* * *