MEDITAÇÕES DE SHAYNA
Márcia Villas-Bôas
Ó Sol, tu que tocas minha pele e me enches de calor, por que não dás à minha alma a vida que ela precisa para ser feliz?
Ó mar, tu que envolves meu corpo em teu morno abraço, por que não sacias esta ânsia de amar?
Ó brisa, tu que me acaricias com teu etéreo beijo, por que não me trazes também a tranqüilidade em meu interior?
Olho o espaço infinito em busca de alguém, que talvez seja eu mesma em outra dimensão. Ergo-me de frente para o horizonte Norte e estendo os braços em cruz. O Sol nasce em minha mão direita, curva-se sobre minha cabeça e deita-se na minha mão esquerda. Vejo passar à frente dos meus olhos, noite após noite, os corpos brilhantes do céu. De Alpheratz a Pollux minha vista alcança e, atrás de mim, sinto a proteção do Cruzeiro do Sul.
Em qual de vós, estrelas longínquas, esconde-se o meu único amor?
De que distância imensurável sinto a chamada de seu coração?
Olho ao meu redor e não encontro respostas às minhas perguntas e nem bálsamo para minha aflição. Sorrio aos filhos que a vida me deu e estendo-lhes a mão. Sei então que não são meus filhos, mas filhos desta ânsia incontida de um amor que não sei onde se esconde. Dei a eles minha vida e naquele exato momento em que minha semente gerou seus seres, projetei no espaço toda a força do meu amor. E este amor transformou-se em luz, lançou-se pelo espaço e envolveu suas consciências, arrastando-os ao meu útero. São os filhos do amor que tenho em meu coração, do amor que lanço as estrelas, do amor que pergunta à luz, ao sol: Onde estás? Quem és? E talvez, neste momento, a brisa que passa murmure seu nome, mas eu não entenda a sua linguagem.
E à noite, quando meu corpo cansado e dolorido entrega-se ao sono de paz, minha alma, liberta dos grilhões da matéria, lança-se aflita entre as estrelas, procurando, procurando sempre... Viajo entre os brilhos de um universo muito além da matéria, entro no seio do sol e banho-me em luz.
E então te vejo... Não sei quem és mas sei que sou eu mesma. E tu me sorris, estendes-me tuas mãos e vagamos, juntos, pelo espaço infinito. Ó Deus, como sou, então, feliz! Amo e sinto que teu Amor por mim é intenso e vivo. Amo e, neste estado, olho o mundo físico onde deixei meu corpo repousando e pressinto que ali não é o meu lugar. Sou das estrelas, do Universo etéreo, imaterial, sou tua e tu és meu... Mas quem és tu? Onde estás quando, como eu, voltas à tua morada física? Estás na terra ou em outro mundo físico?
Ó Deus, onde encontrar a resposta?
E, no espaço, olho teus olhos e perco-me em teu ser. Por que voltar? Para onde voltar, eu sei. Meu corpo me espera. Mas por que voltar? Para que voltar se meu lugar é no espaço, contigo, como teu Amor?
E ante meus olhos, no horizonte Norte, Pollux ocupa o lugar de Alpheratz, que minha vista já não alcança, e surgem Kornephoros, Delphim, Markhab e, novamente, Alpheratz... Os dias se sucedem, os anos passam arrastando-me nesta sensação física chamada tempo.
E o mesmo sol nasce em minha mão direita e morre todos os dias em minha mão esquerda, renascendo em seguida, após aquelas noites deslumbrantes onde, em seu seio quente, banho-me de luz.
E tu, amado ser, distante e tão perto, em que ponto deste mundo físico fitas o teu horizonte Norte? Que estrelas vês passar ante os teus olhos?
Irmãos das estrelas, ouçam meu chamado, atendam a minha súplica! Façam meus olhos encontrarem aquele olhar que só encontro em meus sonhos, façam meu corpo tocar aquele corpo que descansa em algum lugar, enquanto nossas almas se amam! Façam meus lábios sentirem o gosto do único beijo capaz de acalmar esta sede de amor!
Sinto agora que meu brado sobe ao espaço e que, em algum lugar do Universo, alguém me escuta e me compreende...
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